A Lei Anti-Oruam: Controle Cultural, Censura e o Bode Expiatório da Periferia

 


Oruam, um nome que ressoa fortemente no universo do rap e do funk, é, sem dúvida, uma figura polêmica. Filho de Marcinho VT, líder de uma conhecida facção, ele se destacou justamente por sua trajetória marcada por atos ilícitos , tendo sido preso em 1996 por tráfico de drogas e homicídio  e, ainda assim, mantendo uma influência considerável, mesmo encarcerado.

A principal crítica ao trabalho de Oruam reside na sua aparente celebração do crime organizado. Por meio de letras e performances que fazem apologia a atos criminosos, ele não só banaliza a violência, mas também contribui para a construção de um imaginário onde o comportamento delinquente é elevado a um status quase heróico. Essa postura não ignora, em nenhum momento, a dura realidade dos impactos sociais da criminalidade, mas sim os transforma em um espetáculo, onde o crime é romantizado, e o sofrimento e a marginalização de tantas comunidades ficam à margem dessa narrativa.

Entretanto, a influência que ele exerce não pode ser vista de maneira isolada: ao transformar sua experiência no enredo de suas músicas, Oruam reforça um ciclo de glamourização da criminalidade, que pode incitar comportamentos de risco e perpetuar a cultura do ódio e da violência.

Recentemente, o próprio nome de Oruam foi apropriado para batizar uma lei , a chamada Lei Anti-Oruam que visa retirar recursos de artistas que façam apologia ao crime organizado. Essa iniciativa política é emblemática do uso de sua figura como um mero bode expiatório, desvirtuando a discussão que deveria ser sobre as reais raízes da violência e da marginalização nas periferias. Ao invés de analisar de forma crítica as condições socioeconômicas que geram tais comportamentos, a medida acaba por simplificar o debate, transformando um indivíduo em símbolo de um problema muito mais complexo.

Criticar Oruam, portanto, vai além de apontar falhas artísticas ou morais em suas letras; trata-se de questionar como a sociedade e o sistema político se servem de figuras como a dele para justificar a censura e a exclusão cultural. Ao glorificar o crime em suas produções, Oruam não só contribui para a normalização de comportamentos violentos, mas também alimenta um ciclo de marginalização. Por outro lado, utilizá-lo como símbolo para implementar leis repressivas desvia o foco das verdadeiras causas da violência urbana, transformando o debate em uma simples questão de “culpa” individual, enquanto as estruturas que alimentam essa realidade permanecem intocadas.

 A crítica, por mais que pessoalmente repudie as atitudes e a retórica do artista, se torna uma ferramenta política ao ser estendida para toda uma cultura a do rap e do funk  que, historicamente, tem servido como forma de denúncia e resistência. Assim, quando o Estado propõe retirar recursos de qualquer artista que, de alguma forma, fale sobre o crime, o risco é claro: abre-se um precedente perigoso para a censura de uma expressão legítima, ainda que inconveniente para os interesses do poder.

Além disso, a utilização de expressões e gírias do mundo do crime na própria retórica oficial  como se a normalização desses termos pudesse, de alguma forma, “domesticá-los” demonstra a ironia de um sistema que, ao mesmo tempo que tenta deslegitimar a cultura dos marginalizados, adota elementos dessa linguagem para sustentar sua narrativa de “ordem e segurança”. Assim, o debate não é apenas sobre a moralidade ou o talento de um artista, mas sobre a maneira como o Estado utiliza a cultura e a linguagem para perpetuar um modelo de sociedade excludente e repressivo.

Em última análise, a proposta da Lei Anti-Oruam se revela como mais uma faceta de um aparato de poder que busca, pela criminalização e estigmatização, reduzir o espaço de expressão dos segmentos historicamente marginalizados. O verdadeiro combate à criminalidade e a promoção da segurança não podem ser alcançados por meio da exclusão cultural, mas sim pelo reconhecimento da pluralidade de vozes e pela construção de políticas públicas que enfrentem as causas profundas da violência e da desigualdade. Dessa forma, transformar Oruam ou qualquer outro artista periférico  no vilão da história é, na verdade, desviar o foco dos reais problemas que assolam nossa sociedade.

Em resumo, Oruam é, ao mesmo tempo, um produto e um agente de um sistema que privilegia narrativas simplistas e polarizadas, onde o crime é tanto exaltado quanto convenientemente culpado para fins políticos. Essa dualidade revela as profundas contradições presentes em nossa sociedade e a necessidade urgente de repensar as políticas de segurança e cultura, de modo a enfrentar de forma integral as raízes da violência e da exclusão.

Trago fatos, Marília Ms.

Comentários

Matérias + vistas