Sergipe: O Paradoxo da Letalidade Policial e o Maior Gasto em Segurança Pública no Nordeste
Nos últimos quatro anos, Sergipe tornou-se um dos estados mais letais do Brasil em ações policiais, revelando um cenário alarmante de violência institucional que desafia qualquer justificativa oficial. Nesse período, 810 pessoas foram mortas pela polícia, sendo 229 somente no primeiro ano do governo de Fábio Mitidieri (PSD), o maior número já registrado no estado. Esse dado, por si só, seria suficiente para acender um sinal de alerta, mas a resposta oficial insiste em tratar cada uma dessas mortes como resultado de “confrontos” ou “reação à injusta agressão”. Essa narrativa, repetida como um mantra, não encontra questionamento nem na imprensa nem entre os órgãos de fiscalização, perpetuando um sistema em que a força letal da polícia é normalizada e aceita sem crítica.
Por trás dessas estatísticas brutais há histórias que se repetem em um padrão assustador: cerca de 85% das vítimas são jovens negros, entre 12 e 29 anos, cujas vidas foram ceifadas em operações que frequentemente carecem de transparência e escrutínio. Esses números, corroborados por dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), não apenas escancaram o racismo estrutural que permeia as ações das forças de segurança em Sergipe, mas também evidenciam o uso desproporcional da força em comunidades vulneráveis, especialmente nas periferias de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Itabaiana e Lagarto. Nessas localidades, o aparato policial age mais como um executor do que como um agente de proteção, transformando bairros inteiros em zonas de medo constante.
Enquanto centenas de jovens negros perdem suas vidas sob o pretexto de operações de combate ao crime, as baixas do lado das forças de segurança são quase inexistentes. Nos últimos quatro anos, apenas quatro policiais morreram em serviço, e, nos dois últimos anos, nenhum agente perdeu a vida. Apesar disso, 404 pessoas foram mortas nesse mesmo período, o que reforça a ideia de que o discurso do “confronto” não passa de uma desculpa esfarrapada para execuções extrajudiciais. Não se trata de uma guerra, mas de um massacre unidirecional que tem como alvo a parcela mais vulnerável da população.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando analisamos os investimentos em segurança pública. Sergipe gastou mais de R$1,2 bilhão no setor em 2022, o maior gasto per capita do Nordeste, com R$581,52 por habitante. Apesar disso, esses recursos não parecem ter sido aplicados de forma a garantir a segurança da população. Pelo contrário, eles alimentam um sistema que prioriza o confronto armado e as operações letais, enquanto negligencia políticas de prevenção, educação e assistência social. A conta simplesmente não fecha: como um estado que gasta tanto com segurança pública continua liderando os rankings de letalidade policial?
A resposta está na política de segurança pública adotada, que privilegia a repressão violenta em detrimento de estratégias de combate ao crime que respeitem os direitos humanos. A Secretaria de Segurança Pública de Sergipe defende que todas as mortes são investigadas e que os policiais recebem treinamento contínuo para o uso adequado da força. No entanto, os números indicam outra realidade. Não se trata de aprimorar a técnica dos agentes, mas de perpetuar um sistema que enxerga o jovem negro das periferias como um inimigo a ser eliminado.
A justificativa oficial aponta para o tráfico de drogas como a principal causa dos crimes violentos no estado, mas essa explicação simplista ignora as raízes mais profundas da violência. A disputa por territórios entre facções, de fato, intensifica os índices de homicídios, mas não justifica a lógica de execução adotada pela polícia. A guerra contra as drogas, tal como conduzida em Sergipe, não é uma solução; é um problema em si. Ela não apenas falha em reduzir a criminalidade, mas também contribui para o agravamento das desigualdades sociais, ao transformar comunidades inteiras em campos de batalha.
O mais perturbador é que essa violência é sistematicamente naturalizada. A imprensa local, em sua maioria, reproduz sem questionar as narrativas oficiais, enquanto os órgãos de fiscalização permanecem inertes. O ciclo de impunidade é alimentado pela ausência de investigações independentes e pela falta de responsabilização dos agentes envolvidos. A mensagem enviada à população é clara: algumas vidas valem menos que outras.
Esse cenário reflete escolhas políticas que privilegiam o uso da força em detrimento da proteção à vida. Ao invés de investir em políticas públicas que reduzam as desigualdades e ofereçam oportunidades reais para a juventude, o estado opta por militarizar o problema, tratando sintomas enquanto ignora as causas. Essa abordagem não apenas perpetua o racismo e a exclusão social, mas também mina a confiança da população nas instituições que deveriam protegê-la.
É necessário romper com essa lógica perversa. Sergipe precisa urgentemente repensar sua política de segurança pública, adotando uma abordagem que valorize a vida e respeite os direitos humanos. Investir em educação, cultura, saúde e geração de empregos é muito mais eficaz do que financiar operações letais que apenas aprofundam o abismo social. Além disso, é fundamental que as mortes em ações policiais sejam investigadas de forma rigorosa e independente, com a participação do Ministério Público e de organizações da sociedade civil.
A letalidade policial não é apenas um problema de segurança pública; é um reflexo de um estado que falha em proteger seus cidadãos mais vulneráveis. Em Sergipe, o custo dessa falha é medido em vidas perdidas, sonhos interrompidos e comunidades traumatizadas. A mudança não é apenas necessária , ela é urgente. Afinal, a verdadeira segurança pública só pode ser alcançada quando cada vida é tratada como digna de proteção, e não como alvo de extermínio.
Trago fatos , Marília Ms


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