O vazio cultural na nova gestão de Aracaju

 


Com 21 dias de gestão, a prefeita Emília Corrêa (PL) tem se movimentado em áreas essenciais, como transporte, saúde, IPTU, e até questões climáticas, mas a cultura permanece relegada ao limbo administrativo. A Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju) continua sem titular, e a presença interina de Fábio Uchôa, secretário de Articulação Política, demonstra uma ausência de compromisso estratégico com o setor. Enquanto a prefeita prometeu mudanças significativas para a cultura durante sua campanha, a realidade mostra uma gestão que ainda não saiu do discurso vazio.

O cancelamento do Projeto Verão, sob a justificativa de falta de recursos, é emblemático. Apesar de a prefeita alegar a destinação dos esforços para o aniversário da cidade em março, é difícil não enxergar a decisão como um retrocesso, já que o evento, embora não perfeito, era uma rara iniciativa que movimentava a cena cultural local. Emília criticou as gestões anteriores pela falta de transparência e respeito aos artistas, mas, na prática, sua administração perpetua o mesmo ciclo de negligência.

A criação de uma Secretaria Municipal de Cultura, anunciada como parte de uma reforma administrativa futura, soa como promessa vaga e sem cronograma. A comunidade cultural de Aracaju, que engloba músicos, artistas visuais, escritores, e tantos outros trabalhadores, enfrenta há anos o descaso e a invisibilização. O desgaste atingiu seu ápice na condução da Lei Paulo Gustavo, que deveria ser um marco de valorização cultural, mas revelou uma gestão desconectada das demandas do setor.

Essa falta de diálogo institucional com os fazedores de cultura é um reflexo da visão utilitarista que trata a cultura como sinônimo de eventos esporádicos, em vez de enxergá-la como um motor essencial para o desenvolvimento social e econômico da cidade. O coletivo de música sergipana (Comus) destacou o descaso histórico, agora agravado por uma gestão que não reconhece a pluralidade da cultura como força transformadora.

Não faltam nomes e iniciativas em Aracaju para construir uma política cultural sólida. O que falta é vontade política e visão estratégica. A cultura não é apenas entretenimento: é educação, memória, pertencimento e geração de renda. Quando uma gestão ignora isso, compromete o futuro de uma cidade que possui uma rica herança cultural e artistas talentosos.

Se Emília Corrêa quiser honrar suas promessas de campanha e se distanciar do “sistemão” que tanto criticou, precisará sair do marasmo administrativo. Nomear um titular para a Funcaju com experiência e engajamento na área cultural seria um começo. Revitalizar espaços culturais, fomentar a produção artística local, e estabelecer diálogos reais com a comunidade são ações urgentes.

Por enquanto, a gestão de Emília Corrêa se limita a gestos tímidos e decisões controversas, como o cancelamento do Projeto Verão. Se a cultura continuar sendo vista como um adereço, e não como um pilar, Aracaju perderá mais uma oportunidade de transformar seu potencial cultural em desenvolvimento humano e social. É hora de sair do discurso e agir antes que a cidade mergulhe ainda mais no “mar do nada”.

O discurso da gestão municipal sobre "diálogo" e "fortalecimento da cultura" soa vazio quando, na prática, o setor continua relegado a segundo plano. Criar uma Secretaria Municipal de Cultura é, sim, uma proposta interessante, mas não basta. É preciso garantir orçamento, técnicos qualificados e, acima de tudo, vontade política para transformar promessas em ações.

Aracaju, uma cidade rica em história e diversidade cultural, não pode continuar refém de uma lógica de gestão que enxerga a cultura apenas como eventos pontuais. É preciso um olhar amplo, que valorize os artistas locais, promova a inclusão social por meio da arte e reconheça a cultura como um direito fundamental.

A prefeita Emília Corrêa ainda tem tempo para corrigir o rumo e mostrar que sua gestão pode, de fato, fazer a diferença. No entanto, o que se viu até agora não inspira confiança. Enquanto a cultura permanecer órfã de políticas públicas sérias, Aracaju continuará sendo uma cidade de potencial imenso, mas sufocada pelo descaso e pela negligência.

Trago fatos , Marília Ms






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