Negligência e Descaso: A Tragédia da SE-438 e o Descumprimento da Segurança nas Estruturas de Sergipe

No dia 12 de janeiro de 2024, o município de Capela, localizado a apenas 65 km de Aracaju, foi palco de uma tragédia que poderia e deveria ter sido evitada. Três vidas foram ceifadas devido ao colapso de um trecho da rodovia SE-438, que, como tantas outras, parecia estar à mercê da inércia das autoridades públicas. Adriana Vieira, Flávia Silva e Bruno Andrade retornavam de Aracaju, onde haviam ido liberar o corpo da avó de Flávia, quando, ao atravessar um ponto crítico da rodovia, tiveram o carro arrastado pela força da enxurrada. Esta tragédia, mais do que um acidente de trânsito, é um reflexo de um problema maior: a negligência das autoridades, a omissão do poder público e a perpetuação de uma gestão pública que falha em priorizar a segurança e o bem-estar da população.
A resposta do governador de Sergipe, Fábio Mitidieri, e de outros membros do governo, ao classificar o ocorrido como uma “fatalidade da natureza”, é, no mínimo, uma tentativa de eximir-se de qualquer responsabilidade. O fato de que, um ano após o ocorrido, o governo de Sergipe tenha voltado a prometer reparos na estrada, após a insistente denúncia de moradores e ex-gestores, deixa claro que os problemas estruturais e ambientais da rodovia SE-438 eram conhecidos e, mesmo assim, ignorados até que fosse tarde demais. Mais grave ainda, foi a postura do governador ao tentar justificar o colapso com o argumento das mudanças climáticas, sem levar em consideração as falhas na gestão pública e a irresponsabilidade de não garantir infraestrutura adequada para a população.
É importante destacar que, em maio de 2024, o ex-prefeito de Capela, Manoel Sukita, e o deputado estadual Cristiano Cavalcante, ambos cientes dos problemas da rodovia, já haviam feito vídeos e alertado sobre a necessidade de reparos urgentes. Naquele momento, o governo do estado parecia estar mais preocupado em dar respostas políticas e apaziguar a situação, sem de fato se empenhar em ações concretas que garantissem a segurança da rodovia. Este cenário de desprezo pela vida das pessoas revela não só a falta de compromisso com o povo sergipano, mas também uma falha sistemática nas prioridades da gestão pública.
O que se vê em Sergipe é um padrão repetido de promessas vazias e obras que, por serem mal executadas e feitas de maneira apressada, não resolvem os problemas de fundo. A tragédia de Capela é um exemplo claro disso. Em 2024, o governo do estado publicou no Diário Oficial do Estado que havia recebido autorização ambiental para realizar obras de recuperação da drenagem da rodovia, com um valor orçado em R$ 261,5 mil e prazo de execução de 60 dias. No entanto, o que deveria ter sido um trabalho bem feito, com planejamento a longo prazo e garantia de segurança, acabou por se tornar mais um projeto mal executado, que não resistiu ao primeiro teste real: a força das chuvas.
O caso de Capela também revela uma relação incestuosa entre a exploração do território e a falta de fiscalização e controle público. A presença de grandes produtores de cana-de-açúcar, como a Usina Santa Clara, e a expansão do cultivo em áreas de latifúndio, causaram a destruição das matas nas margens da rodovia. Essa devastação comprometeu a drenagem natural da água, aumentando a vulnerabilidade da rodovia. A ausência de uma atuação eficaz do poder público diante dos danos ambientais gerados por essa expansão – que envolveu a derrubada de vegetação para a monocultura da cana – foi um dos fatores cruciais para o desastre. O governo estadual, ciente da pressão política dos poderosos do setor agroindustrial, fez vista grossa a essa questão ambiental, que resultou na degradação do meio ambiente e na morte de três pessoas. A relação entre o governo e os grandes produtores se tornou clara quando o ex-prefeito Ezequiel Ferreira Leite Neto, ligado à Usina Santa Clara, foi mencionado como um dos responsáveis pela expansão da área plantada e pelo desmatamento.
Ambos os incidentes demonstram uma falta de ação preventiva e uma gestão pública que não prioriza a segurança nem a qualidade da infraestrutura, colocando a vida dos sergipanos em risco. Em vez de um esforço contínuo para manter e renovar as estruturas, o que se vê é uma resposta lenta e reativa, muitas vezes minimizando os problemas até que se tornem tragédias. O tratamento superficial das questões, como a tentativa de justificar os problemas como normais ou temporários, agrava a sensação de abandono da população e expõe a ineficácia do governo em lidar com situações que exigem urgência.
No entanto, a tragédia de Capela não é um caso isolado. A situação de Barra dos Coqueiros, outro município de Sergipe que também tem sofrido com a falta de infraestrutura e a precariedade das rodovias, serve como mais um exemplo de como a gestão pública falha em priorizar o bem-estar da população. Barra dos Coqueiros, município que também está situado nas proximidades de Aracaju e lida com as mesmas questões de trânsito e infraestrutura precária, tem sido uma das vítimas do abandono das vias públicas. A rodovia SE-100, por exemplo, é um ponto crítico na região, com trechos que há anos necessitam de reparos e melhorias estruturais. Em vez de investir em soluções eficazes, o governo estadual continua a prometer intervenções sem realizar os investimentos necessários.
É inegável que a falta de investimentos em infraestrutura, a negligência com a segurança nas rodovias e a omissão do governo sergipano estão comprometendo a qualidade de vida da população, não apenas na área de Capela, mas também em Barra dos Coqueiros e em várias outras regiões do estado. A forma como a gestão pública trata essas questões demonstra uma total falta de compromisso com a vida das pessoas e com a real melhoria das condições de vida nas comunidades. As mortes em Capela, somadas ao descaso com as rodovias de Barra dos Coqueiros, ilustram um cenário de total desprezo pela segurança pública e pelo futuro de Sergipe.
A tragédia de Capela e a situação de Barra dos Coqueiros são, portanto, mais do que exemplos de falhas estruturais: elas são um reflexo de uma gestão pública que não coloca a população como prioridade. A falta de ação, a procrastinação e a falência de uma infraestrutura básica são problemas que necessitam de uma resposta urgente. O governo de Sergipe, ao tentar transferir a responsabilidade para fatores externos como as mudanças climáticas, está falhando em reconhecer a sua própria negligência. É preciso exigir não apenas soluções temporárias, mas uma reforma real e eficaz da gestão pública, com foco na segurança e na infraestrutura, para que tragédias como a de Capela não se repitam em nenhum outro lugar do estado.
Trago fatos , Marília Ms


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