"Catholic Core" : A Estética da Espiritualidade

 



Vivemos em tempos onde até mesmo o sagrado é transformado em produto, embalado para consumo rápido. 

O Catholic Core, como fenômeno estético, surge nesse cenário de superficialidade, convertendo símbolos religiosos e espirituais em tendências descartáveis.

 Crucifixos adornam pescoços, véus cobrem cabelos em editoriais de moda, e influenciadores declaram conversões religiosas enquanto promovem marcas de luxo. Por trás dessa fachada de devoção e espiritualidade, o que se revela é uma cultura obcecada pela aparência e desinteressada pelo significado.


A espiritualidade, um caminho interior que deveria conectar o indivíduo com sua essência, é reduzida a poses para fotos. A energia feminina, por exemplo, é frequentemente distorcida e encapsulada na figura de Afrodite, como se todo o potencial dessa força estivesse limitado a uma visão hipersexualizada e estereotipada. Assim, o que poderia ser uma jornada de autoconhecimento e empoderamento é trivializado, transformado em algo vendável e, pior, controlado por padrões de consumo.

Essa estética não apenas desrespeita os símbolos religiosos, mas também contradiz os valores que eles representam. Enquanto a moralidade religiosa prega modéstia e reflexão, vemos vestidos sensuais promovidos sob a “inspiração latina” de santidade e pureza. É a contradição entre a essência e a aparência: usar a religiosidade como adorno, mas esvaziá-la de significado para garantir que caiba na lógica capitalista. O sagrado vira marketing, e a fé, um pano de fundo para campanhas publicitárias.

Por que isso tem tanto apelo? Porque as gerações mais recentes foram treinadas para valorizar o que é bonito e imediato, não o que é profundo e desafiador. O caminho da espiritualidade exige tempo, silêncio, e o confronto com os próprios demônios internos. É um processo que não se encaixa em uma foto perfeita no Instagram. Por outro lado, a estética — com suas cores suaves, filtros bem editados e uma dose de nostalgia romântica — oferece tudo o que é atrativo: validação social, idealização e pertencimento.

O impacto disso é profundo, especialmente entre mulheres jovens, que se tornam alvo fácil para essa mercantilização do sagrado. A promessa é sempre sedutora: ser vista, admirada, desejada — enquanto veste a máscara de alguém conectado com algo maior. Mas no fundo, o que se vende não é espiritualidade, mas insegurança: a constante necessidade de provar valor através da aprovação externa.

É nesse vazio que o Catholic Core e outras tendências semelhantes florescem. A estética vale mais do que a ideologia; a embalagem importa mais que o conteúdo. O problema é que essa superficialidade deixa pouco espaço para o real. Para a verdadeira conexão espiritual. Para a crítica ao sistema que transforma até mesmo o divino em lucro.

É urgente questionar: até onde estamos dispostos a sacrificar o significado pelo apelo visual? Até quando continuaremos permitindo que marcas e influenciadores plastifiquem nossas crenças e nos vendam uma versão higienizada do sagrado? Talvez seja hora de abandonar as vitrines da estética e retornar ao silêncio da alma, onde a espiritualidade não é uma tendência, mas um encontro íntimo consigo mesmo e com o que é maior.
Trago fatos , Marília Ms 

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